segunda-feira , 25 junho 2018
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Onde esteve a escola esse tempo todo?

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Nos anos 90, o economista suíço Jacques Delors propôs uma educação sintonizada com a chegada do século XX, no documento encabeçado pela UNESCO “Educação: Um Tesouro a Descobrir” – que influenciou políticas públicas em todo o mundo. Lá, por entre os pilares que ele considerava essenciais para educar, estavam pistas de como a escola deveria dialogar com a mídia, que se tornaria cada vez mais presente na vida de todos. Práticas de comunicação e educação que o francês Celestín Freinet desbravou nos anos 30, mas que muitos pensadores, como pouca vocação para realização, deixaram morrer nas décadas seguintes.

Nesse sentido, há de fato uma sensação global por parte de educadores e gestores de que, frente às recentes manifestações públicas, nas ruas, de desagravo à política, a escola pareceu mais uma vez bem distante da realidade – assistiu mesmo ao bonde passar, abismada. Professores pareciam perguntar: “onde estive que nada percebi?” Mas a pergunta precisa seria onde a escola “não esteve” e a resposta, “nas redes sociais”, ou mais profundamente, no caldo cultural que respira essa geração.

Ainda reverberando esses recentes fatos, a Nigéria hospedou, no fim de junho, um evento importante organizado pela mesma UNESCO, acerca do tema da Media Information Literacy (MIL); é assim que a organização denomina os projetos educativos de leitura de mídia e produção de comunicação por jovens. A Conferência foi patrocinada pelo governo da Suécia, Arábia Saudita, além dos anfitriões.

Em meio a apresentações acadêmicas, algumas interessantes outras nem tanto, a “International Conference on MIL and Intercultural Dialogue” deu continuidade à construção coletiva de dois importantes o documentos: um propõe uma aliança global entre práticas de MIL, e outro um guia estratégico para políticas públicas na área.

Países como o Brasil avançaram um pouco na última década com relação a produção de comunicação na escola, quando experiências isoladas se fortaleceram em rede e pautaram políticas públicas, como o Mais Educação – levando as práticas de mídia a milhares de escolas públicas no contra-turno. Mas não há ainda uma percepção generalizada de que o trabalho com mídia na educação pode transformar a qualidade do ensino no Brasil e aproximar a escola do universo do estudante.

Nesse sentido, uma aliança global e um norte estratégico em políticas públicas podem-se tornar ações importantes e emblemáticas na construção de uma agenda mundial de apropriação das novas mídias pelo ensino formal, talvez tão importante quanto o documento de Delors.

Coincidência ou não, triste foi noticiar que, na mesma Nigéria, um grupo radical muçulmano massacrou crianças em uma escola cristã perto de Abuja (capital), assim que a Conferência terminou. Não há programa de mídia e educação capaz de fazer entender algumas atrocidades que permeiam um continente que sempre foi tratado como servidor, e jamais ator, de grandes decisões políticas e econômicas mundiais.

Por Alexandre Le Voci

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