terça-feira , 12 dezembro 2017
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Os Fundamentos Históricos do Buddhismo

budismoA visão da história que será aqui apresentada é importante principalmente para quem procura aprender história buddhista através de livros, pois em geral os livros que existem no Brasil em termos de história buddhista são extremamente inadequados e repletos de equívocos. Esta é uma das grandes áreas deficientes no buddhismo ocidental e particularmente no buddhismo brasileiro, em termos de literatura histórico-religiosa especializada.

A data aceita, atualmente, como a mais provável para a morte (ou Mahaparinirvana) do Buddha é em torno de400 a.C. [de fato, algumas pesquisas apontam a data de 483 ou486 a.C. – ou ainda a mais atualmente aceita de397 a.C. – tendo como referência diversos cálculos históricos referenciais]. Esta é uma data que foi revisada pelas últimas décadas de pesquisas históricas, portanto é uma data que ainda não apareceu nos livros. Neste momento ocorre uma grande pesquisa de investigação histórica e arqueológica, de forma que as datas antigas ainda existentes nos livros estão bem desatualizadas.

Portanto, a data da morte do Buddha teria acontecido por volta do ano 400, o que adiantou em quase 100 anos o período que se imaginava antigamente sobre este importante evento. Antes de sua morte e após a sua Iluminação, o Buddha ensina por 45 anos e morre com mais ou menos 80 anos. E em 45 anos são muitos os ensinamentos apresentados. A perpetuação de todo esse conhecimento torna-se uma questão crucial. Nesse período da cultura indiana (e em muitas outras culturas antigas) a forma tradicional de registro do conhecimento se baseava na repetição, e isso era feito através da memorização dos ensinamentos através da transmissão oral, onde grupos de monges se especializavam em grupos de suttas, recitando-os de forma cadenciada.

Sutta (em pali) ou Sutra (em sânscrito) são porções registradas de ensinamentos que podem ir desde meio parágrafo ou meia página até volumes inteiros; se supõe que um sutta é uma porção de ensinamento que se contém em si mesmo, ou seja, seria suficiente para evidenciar aquilo que expõe sem a necessidade de outras referências.

Esses grupos de monges se responsabilizavam por um conjunto da transmissão oral; repetiam aquele ensinamento e se reuniam regularmente depois que aquele trecho estivesse decorado. Ainda hoje na tradição buddhista Theravada existe uma reunião quinzenal onde os monges se reúnem para recitar porções do ensinamento. São resquícios do que acontecia antes com todo o cânon. Não só se especializaram em decorar aqueles ensinamentos, mas em passá-los para as gerações seguintes.

Na Índia sempre existiram várias formas de assegurar a fidedignidade da transmissão, portanto não é uma só pessoa que se responsabiliza por ela. É todo um grupo, e existem certas regras de como devemos fazer uma recitação e como realizar uma contagem de versos que irá assegurar a autenticidade e constância do ensinamento que está sendo passado de geração para geração. E isto já começa a acontecer antes mesmo da morte de Buddha. Três meses depois de sua morte acontece o 1º Concílio onde todos os monges principais se reúnem para realizar a recitação conjunta daquilo que viria a ser chamado de Cânon Buddhista, o conjunto de ensinamentos dados pelo Buddha. Desde a morte do Buddha no ano 400, essas gerações de monges têm perpetuado a recitação dos suttas. E lembrem-se de que são grupos de monges recitando diferentes partes do ensinamento.

Atualmente, o Cânon antigo está dividido em 03 partes. É dividido em Vinaya Pitaka [o conjunto de regras monásticas], Sutta Pitaka [o grupo principal de ensinos de Buddha] e Abhidhamma Pitaka [a sistemática daquilo que normalmente se chama de Psicologia Buddhista ou o estudo da cultura de consciência mental humana segundo o buddhismo além de seções dedicadas à análise da matéria e do incondicionado]. Não é tão importante considerar os nomes, mas sim os três conjuntos de ensinamentos, cada um compilado em vários volumes. Os vários grupos de recitação se especializam em alguns destes conjuntos e vão passando-os às futuras gerações.

Aproximadamente 100 anos após a morte do Buddha começam a aparecer as primeiras diferenças de pontos de vista. Estas diferenças inicialmente ocorreram principalmente em relação a regras de disciplina porque uma das coisas que o Buddha fez foi criar um grupo monástico, o que chamamos de Sangha [comunidade] monástica. Ele criou as regras de convivência entre os monges. Observem que, por exemplo, se fossemos viver juntos por um ano, teríamos que estabelecer certas regras. As refeições seriam em tal e qual hora, teríamos que fazer isso ou aquilo. São pequenas regrinhas que tem como objetivo tornar a convivência mútua a mais agradável e sem problemas possível. O Buddha também estabelece isso. Esse conjunto de regras monásticas, as regras de convivência daquele grupo é chamado de Vinaya.

O que acontece é que com a expansão do buddhismo, depois de um século, esses grupos vão, cada vez mais, se espalhar por outras regiões. Eles vão perdendo também o contato uns com os outros e captando um pouco da cultura da região onde eles estão. Some-se a isso as próprias diferenças que vão se manifestando naturalmente durnte todo um século. Depois de cem anos após a morte do Buddha, as diferenças de interpretação de algumas regras menores começam a acontecer.

Quando chegamos a250 a.C surge como regente principal do subcontinente indiano o Imperador Asoka, que tem um papel muito importante na história da Índia porque é um rei guerreiro. Ele assume o trono e logo sai em guerra contra os vizinhos, dando continuidade ao que o seu pai e seu avô já vinham fazendo. E através dests política expansionista e guerreira, ele consegue unificar, como Imperador, grande parte da Índia. Essa é a primeira unificação da Índia; as pessoas não sabem muito disso, mas a Índia nunca foi um país. A Índia sempre foi um conjunto de reinos e repúblicas e só por três vezes foi unificada de fato. A primeira vez foi com Asoka, a segunda no Império Muçulmano que entra e unifica os vários reinos através da guerra, e a terceira vez com o Império Britânico. Fora dos períodos de Asoka, do Império Muçulmano e do Império Britânico, a Índia sempre foi dividida em vários protetorados, reinos e repúblicas, cada qual com sua estrutura hierárquica, sua cultura, sua língua e seus reis.

Então, com Asoka, a Índia se unifica pela primeira vez (com exceção dos estados do sul), mas uma coisa que ocorre na última guerra de Asoka é que ele, ao percorrer os campos de batalha e ver os milhares de corpos dilacerados, mortos, e as pessoas feridas, sofre um choque profundo, digamos, um choque espiritual. Não se sabe muito bem o que acontece depois disso, mas a história buddhista relata que ele se converte ao buddhismo ou ao DharmaDharma é a palavra sânscrita (em pali é Dhamma). Dhamma é um conceito que já existe na época do Buddha, é pré-buddhista. No Hinduismo, dharma é a lei universal, é o modo como as coisas são. No Buddhismo o termo também vai ter esta acepção.

Asoka, portanto, se converte ao Dharma, especificamente ao dharma buddhista e passa a ser um regente que vai comandar pela paz. Ele se arrepende completamente da violência e tenta aplicar os princípios da não-violência [o Ahimsa], de ajuda ao outro, nas regiões dominadas. Asoka tem um grande papel realmente. Ele é fabuloso neste processo de conversão. Ele faz uma série de coisas que nunca foram feitas antes. E uma das coisas que faz é passar a dar um suporte real muito grande às comunidades espirituais. Tanto aos brahmanas do hinduismo, como os ascetas do jainismo e particularmente do buddhismo. Então em250 a.C a sangha monástica do Buddha realmente passa por um grande crescimento, por uma grande expansão porque pela primeira vez existe não apenas um rei regional, mas um Imperador dando suporte financeiro e institucional aos mosteiros.

Começam a surgir uma série de mosteiros, muito mais monges começam a entrar na Ordem e uma coisa que todos aqueles dirigem centros de algum tipo sabem, é que com toda a expansão vem boas coisas e más coisas. Quando falamos: tal coisa está crescendo, não quer dizer que é uma coisa boa porque toda expansão leva a problemas, a dificuldades. Com mais gente numa certa instituição, começam a haver mais diferenças, mais problemas potenciais, Quando temos um mosteiro que cresce muito ou vários mosteiros que crescem porque têm dinheiro em abundância ou porque o Imperador quer ajudar, também começam a entrar pessoas que desejam ter uma vida fácil; não vão para ter uma vida ascética e difícil de meditação e estudo. De forma que chega um momento que o próprio Asoka convoca um Concílio para expulsar estes monges que estavam propondo diferentes idéias dentro do monasticismo. E este é chamado de terceiro concílio.

Nesta época, quando Asoka ascende ao trono, já existiam duas ou três diferentes escolas, grandes ramificações. Elas eram os Sthaviravadas que era considerado o ramo principal, os Mahasanghikas e os Pudgalavadas. Estas eram as três grandes escolas. Acredita-se que neste Concílio de Asoka, os Pudgalavadas foram considerados possuidores de doutrinas errôneas, mas nem por causa disso deixaram de existir.

Depois desse concílio, começam a surgir ainda mais escolas. Esse período começa a ser conhecido como o período das 18 escolas, pois supostamente existiam dezoito tipos de diferentes linhagens. Uma outra coisa importante que vai acontecer com Asoka é que, com a sua intenção em expandir o dharma, ele começa a criar grupos de missionários com a intenção de realmente espalhar o dharma para várias regiões extremas da Índia. Grupos missionários vão para o sul, para o leste e para o oeste. E é interessante que mesmo na literatura grega temos indicações de que missionários do tempo de Asoka chegaram à Grécia. Há menções nos textos gregos antigos de filósofos andarilhos que se vestiam de laranja e eram carecas. Essas missões atingem, por exemplo, a Pérsia (o Irã atual) e esta foi muito influenciada pelo buddhismo. Ainda hoje quando se visita os museus do Irã e do Iraque que não foram destruídos pelas guerras modernas, encontram-se estátuas buddhistas. Algumas mesquitas foram erigidas em cima de mosteiros buddhistas. Portanto, o buddhismo atingiu o Afeganistão, Paquistão, até chegar ao Irã (antiga Pérsia) e alcançar o Egito e a Grécia.

Os missionários de Asoka que foram para o sul acabaram chegando a uma ilha chamada Sri Lanka, lá no extremo sul da Índia. E no Sri Lanka, o ramo Sthaviravada – que foi o principal vencedor deste 3º Concílio – assume, em língua pali, o nome equivalente ao seu original em sânscrito: Theravada. Durante muito tempo o Theravada permanece na Índia e na região do Sri Lanka e depois de séculos começa a se expandir para a Thailândia, Birmânia, Laos, Camboja, ou seja, todo o sudeste asiático.

Quando falamos hoje em dia que o Theravada é a escola mais antiga é porque daquele grupo de 18 escolas esta é o única que permanece viva. Todas as outras continuaram ainda durante algum tempo, mesmo séculos, mas depois se extinguiram. E a escola Theravada é a única que se preservou nos países acima mencionados e existe até hoje. É a única escola do período antigo.

As pessoas geralmente escutam que o buddhismo tem várias escolas. Este é um assunto complexo: por volta do ano100 a.C começa a surgir na Índia um movimento espiritual e cultural bastante equivalente ao período europeu da Renascença. A Renascença foi um período pós Idade Média e que possuía um modo particular de ser; um período extremamente criativo. Foi um período de florescimento das artes, da intelectualidade, um período de exploração da ciência. Mas isso não significa que tal período fosse melhor ou pior que o anterior. Temos muito preconceito para com a Idade Média, por causa de alguns livros antigos que lemos, considerando-a um período negro. Embora esse pré-conceito já tenha sido um tanto superado, essa idéia ainda persiste na mente de muitos, mas isso não é bem assim. A Idade Média foi um período bastante forte, poderoso, mas de uma cultura muito religiosa. O que acontece no período da Renascença é que ocorre um reflorescimento inspirado pela cultura grega onde se começa a repensar a arte, a cultura, a música, a arquitetura.

Na Índia, aproximadamente na época de Cristo, começa a haver um momento – não só no buddhismo, mas como um todo – equivalente ou similar à Renascença, de grande reflorescimento das artes, arquitetura, etc. E isso atinge também o buddhismo. Esse movimento começa a renovar o buddhismo em termos de reescrever os seus conceitos numa linguagem diferente. Dentro de nosso símile, uma reescrita do medievalismo com sabor renascentista. E então o que acontece? Uma das coisas que começa a surgir um tanto misteriosamente, por volta do ano100 a.C, é que uma nova literatura começa a aparecer no cenário do buddhismo, com alguma tradição oral e também com tradição escrita. Começam a surgir textos que vão ser chamados também de sutras e a forma deles é semelhante aos sutras antigos. Estes textos registram o que ocorreu na época do Buddha, e o Buddha aparece como personagem, mas o conteúdo e a impressão geral desses novos sutras é bem diferente quando comparados de perto aos sutras antigos.

Mas nosso objetivo aqui é falar sobre história, não sobre doutrina. Não nos interessa no momento analisar o conteúdo dessa nova literatura. O fato é que existe uma nova literatura que surge nesse período. E é uma literatura que vai tentar se legitimar de várias formas. Uma das formas foi afirmar que tais sutras foram preservados escondidos, e que só 300 ou 400 anos depois seus guardiões misteriosos resolveram se manifestar e colocá-los à luz numa linguagem mais atual. Outras várias explicações foram dadas no decorrer da história para justificar como apareceu uma literatura nova, desejando se inserir ela mesma como também parte do cânon.

Na época alguns buddhistas da sangha monástica tomaram esses sutras e disseram: ‘Realmente isto aqui é compatível com os ensinamentos do Buddha. Apesar de parecer meio novo e ter uma linguagem diferente, isto é compatível‘. E então esses novos monges assumiram esses ensinamentos e as práticas que essa nova literatura propunha. Mas existiram monges em algumas comunidades que falaram: ‘Não, isto aqui é uma coisa nova e não faz parte das recitações, da tradição oral que recebemos e não vamos aceitar esta nova literatura como sendo canônica. Ela é um comentário, pode ser correto ou pode ser errôneo, mas é apenas um comentário. Nós não aceitamos que isso possa entrar no cânon e que seja aceito na tradição como sendo palavra do Buddha’. E então o que ocorre? O que ocorre é que num mesmo mosteiro alguns monges vão adotar essa nova literatura e outros não, mas as regras monásticas de convivência continuam as mesmas e as práticas básicas continuam as mesmas. Só que certo grupo começa a estudar também um outro tipo de literatura e fazer algumas práticas especializadas.

Esta nova literatura e este novo movimento que comparamos à Renascença, será conhecido mais tarde sob o nome de Mahayana. Durante alguns séculos continuará existindo a prática e vivência conjunta dos monges que seguiam o cânon antigo e os novos ensinamentos. Mas as escolas buddhistas que surgiriam no futuro aparecerão dentro do ambiente Mahayana. Elas não surgem como divisões, não há brigas entre os grupos. Os monges continuam convivendo no mesmo local, mas alguns possuem algumas práticas especiais; é o mesmo Vinaya, a mesma regra monástica, as mesmas práticas, as mesmas doutrinas básicas. Com o tempo, décadas e séculos, finalmente começam a existir mosteiros que assumem como um todo o cânon antigo e outros mosteiros que assumes de vez a nova perspectiva mahayana.

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Adendo Final

Devido aos limites de espaço para aqui apresentarmos em mais detalhes a evolução buddhista, gostaríamos de terminar este pequeno artigo introdutório com um resumo básico das escolas buddhistas atualmente reconhecidas como derivadas do movimento tradicional de Buddha. São elas:

– A escola Theravada;

– Os ramos Mahayana:

– As escolas Dhyana (meditativas): Ch’an chinês (original), Zen Japonês, Thien Vietnamita, Son coreano;

– As escolas Terra Pura da China e Japão (Jodo Jodo Shin no Japão);

– A escola Tien T’ai;

– As linhagens Vajrayana (Buddhismo Tibetano e Shingon);

– A escola Nichiren

Autor: Upasaka Dhanapala (Ricardo Sasaki)

Organização de Tam Huyen Van (Claudio Miklos) baseada nos apontamentos da conferência oferecida pelo prof. Ricardo Sasaki em Florianópolis, Abril de 2009, e em fontes literárias diversas.

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