terça-feira , 12 dezembro 2017
Capa » Cura » Fé x Cura – Segundo a Igreja Católica

Fé x Cura – Segundo a Igreja Católica

cristianismoA fé pode ajudar no processo de cura?

Para nos iluminar na nossa reflexão sobre a relação entre cura e a fé no sentido cristão, tenhamos em mente um trecho das nossas Sagradas Escrituras. O Trecho é do Evangelho de Lucas, 5, 12-13: “E aconteceu que, quando estava numa daquelas cidades, eis que um homem cheio de lepra, vendo a Jesus, prostrou-se com  o rosto por terra e rogou-lhe, dizendo: Senhor, se quiseres, tens o poder de limpar-me. E ele, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, sê  limpo. E logo a lepra desapareceu dele”.

Obviamente na época não se tinha o conhecimento científico da lepra ou hanseníase como hoje nós já possuímos. Na época, essa e outras doenças faziam do individuo uma pessoa impura, impossibilitada de uma relação social, familiar e até “espiritual”, pois o leproso não era somente impuro no corpo, mas também era considerado como impuro na alma, um ser abandonado por Deus, amaldiçoado. Desse modo, os que queriam manter-se na fidelidade para com Deus e seguidor da lei, deveria evitar a qualquer custo, o contato com esse pobre pecador.

Mas o modo de proceder de Jesus é completamente diferente. Jesus não tem medo de aproximar-se desse homem, estender as mãos sobre, tocá-lo. Atitudes escandalosas diante das normas culturais e interpretações religiosas.

Se as atitudes de Jesus nos chamam a atenção, também as do leproso são profundamente significativas. Esse homem, olha para Jesus, portanto, encontra nele um sinal de esperança em meio a exclusão vivida; cai com o rosto por terra, prostra-se como manifestação de humildade; suplica-lhe  como uma fervorosa oração e diz se queres, não pressiona, não delimita; tens o poder (acredita no poder de Deus) de purificar-me. E Jesus quer e o cura, “imediatamente a lepra o deixou”.

A fé em alguém que tem um poder muito maior que nossas forças, que ultrapassa a barreira das estruturas sociais, culturais, políticas e religiosas; em alguém que não se deixa limitar pelo sofrimento, nem mesmo pela morte, que no escândalo do sangue violentamente derramado revela a esperança e a vitória, nos permite pensar na cura, não como uma realidade mágica, fantasiosa, mas como algo que pode ser compreensível pela luz da razão, mas dificilmente explicado unicamente por ela.

É assim o poder de Deus, é a assim, o mistério da fé. Quando tudo parece impossível, quando os nossos esquemas já não funcionam, quando a ciência revela sua fragilidade, mesmo assim, a fé pode apresentar a enigmática possibilidade da cura. O filósofo Kierkegaard dizia que é justamente diante do escândalo, da contradição da razão, que se revela com mais nitidez a possibilidade da fé.

Contudo, a cura não procede exatamente da fé, mas sim do amor de Deus, no qual devemos sempre em quaisquer circunstâncias acreditar, mesmo nas mais caóticas. E o amor de Deus se manifesta de modos imprevisíveis, por isso mesmo quando  não vemos claramente a cura, não significa que ela não esteja sendo operada por caminhos que somente Deus conhece. Isso significa que as curas nem sempre acontecerão da maneira como nós queremos. Se tudo não sair conforme o modo programado por nós, não significa que não esteja saindo do modo como está programado por Deus. Para o qual nada é impossível.

Gostaria de terminar esse artigo com o testemunho de um homem que permaneceu firme na fé apesar circunstâncias extremamente dolorosas que enfrentava e acreditava que Deus o estava curando dia a dia mesmo que sua enfermidade cada vez mais se agravasse. Este é o testemunho de Karol Wotyla, o papa João Paulo II. Uma vez quando uma crise convulsionou o seu corpo, chegando ao limite da asfixia, foi levado ao hospital Gemelli e foi submetido a uma traqueostomia para evitar uma sufocação. Durante algum tempo não pode mais falar. Após a cirurgia e os efeitos da anestesia, escreveu: O que fizeram comigo? Mas… totus tuus! Seja feita a tua vontade (Cf. GAETA, Savério (Org.) Esta é a minha vida. João Paulo II segundo… ele próprio. 2ª. ed. São Paulo: Paulinas, 2011, 255-256).

Assim como João Paulo, encontramos várias pessoas nos leitos dos hospitais que em meio aos aparelhos e remédios apresentam uma fervorosa confiança no poder de Deus e são grandes testemunhos de vida, mesmo estando “às portas da morte”. E muitas, de fato, surpreendem a previsão científica. Isso demonstra o quanto a fé pode ajudar no processo de cura, restabelecimento e até mesmo, aceitação do sofrimento. Portanto, há sérias evidências de que Deus pode curar. Às vezes, de modo constatável aos olhos humanos e empiricamente provável, mas muitas outras vezes, misteriosamente, porém com a mesma eficácia.

Frei Ademildo Gomes

Sacerdote Religioso da Ordem dos Agostinianos Recoletos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

This blog is kept spam free by WP-SpamFree.

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE