segunda-feira , 20 agosto 2018
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Faculdades de Educação correm atrás do próprio rabo.

jovem offlineHá um certo exagero, devo admitir, nas reportagens que colocam na internet a panacéia da escola e educação brasileiras. Na verdade uma visão superficial e míope costuma prevalecer nesse tipo de comentário: o foco está estagnado nos meios e não no fim.

Explico: quase não se fala de um aluno conectado, que vê na tecnologia um novo atrativo na escola; tampouco fala-se de um professor capaz de transformar aulas e misturar papéis no aprendizado com o auxílio da tecnologia. Diz-se, sim, de uma espécie de “modus” milagroso de funcionamento com o qual a tecnologia funciona, capaz melhorar a qualidade de ensino – algo quase místico.

Por outro lado, tem me assustado artigos e opiniões retroativos de acadêmicos da área, publicados nos mais variados veículos. Sem perceber, eles acusam um duro golpe sofrido pelas faculdades de educação e cursos de pedagogia: eles se posicionaram nas últimas décadas de forma tão antiquada, abraçando disputas ideológicas, e agora parecem totalmente perdidas, sem papel na educação deste século.

Tudo é “passado” na maioria dos cursos superiores ligados à educação do Brasil. Se fala de pensadores que já se foram, de métodos do século passado e muito de política. Nessa linha quase arqueológica, descobertas da neurociência, tecnologia e experimentação são palavrões. Formam-se bons pesquisadores e péssimos educadores – adentre a alguma escola de aplicação para verificar isso na prática.

Cheguei a ler aqui mesmo no Estadão algo como “Carlos Drummond de Andrade viveu sem internet”. Completo: minha avó não conheceu o voto, meu bisavô viveu sem a penicilina. Mas também andavam de bonde, numa São Paulo bem menor e com poucos empregos qualificados, escutavam rádio numa época que o analfabetismo no mundo era assombroso. Era essa uma época melhor? Uma educação melhor?

Internet, tecnologia e educação dizem respeito a algumas questões: direito ao acesso a informação, atração do jovem para uma escola mais conectada a seus anseios e aproximação de educadores e educandos. Mas a academia parece não querer saber de direitos, opinião de estudantes e resultados reais de aprendizado. A disputa entre “opressores” e “oprimidos” vale mais e parece não passar por essas questões.

Números raramente mentem: as últimas pesquisas da FGV Rio apontam para o desinteresse do aluno como principal fonte da evasão da escola; em uma pesquisa feita pelo Centro Ruth Cardoso apontou que 97% dos alunos participantes de um dos programas da ONG tinham conta e acesso às redes sociais pelo celular. Posso escrever dez artigos recheados de pesquisas sobre a relação direta entre uso de tecnologia e melhora de indicadores no ensino no Brasil e no mundo.

As faculdades de Educação têm que parar de correr atrás do próprio rabo, ou vão se perder ainda mais espaço nos debates e práticas educativas transformadoras. Começo a temer, lá no fundo, que alguns educadores de cátedra acreditem que a escola não seja criada para ensinar e que resultados não são tão importantes quanto debates ideológicos. Isso sim é alarmante e irresponsável.

Por Alexandre Le Voci Sayad

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