sábado , 22 setembro 2018
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Estudantes querem falar e ser escutados

AlunosUma pergunta raríssima foi feita pelo Centro Ruth Cardoso para estudantes durante a primeira edição do Festival Educação, encerrada em novembro: o que você faria pela melhora do ensino e da sua escola?

As mais de 400 ideias analisadas por uma comissão levaram a uma relevante conclusão: nas 9 escolas participantes, programas ligados à expressão do aluno (artes ou comunicação) predominaram. Junto com essas, estão aquelas ligadas ao esporte, leitura, escolha de profissão e melhora de estrutura física da escola.

Não foram as mais originais, pois apareceram aos montes, mas denotaram uma questão comum: a escola parece ainda fechar ouvidos e canais de expressão aos seus estudantes. Não sem motivo, essas ideias recorrentes foram chamadas de “gritos” pela organização do Festival e tiveram atenção especial.

O “ecossistema de comunicação” de uma instituição, que é como o educador Jesus Martin-Barbero costuma definir o fluxo de comunicação e poder, ainda é domínio de adultos na escola. Professores reclamam historicamente da remuneração, funcionários clamam por melhoras na estrutura de trabalho e os diretores são freqüentemente questionados sobre sua capacidade de gestão. Mas e o estudante? O que ele pensa sobre isso? Com que escola ele sonha?

O principal beneficiário e interessado, para qual todo o sistema foi estruturado, o aluno costuma passar longe dessa rodízio de “mea culpas” e cobranças públicas e somente é lembrado quando avaliado, por seus professores, por indicadores nacionais ou internacionais.

Isso nos fez lembrar justamente uma aula. O Prof. Dr. José Miguel Wisnik certa vez identificou a raiz da palavra adolescente. Segundo ele, adolescente, do latim, é aquele que exala um perfume. Ou melhor, que está exalando neste momento (gerúndio) um odor. A poética do significado define bem o estágio da vida em que mais estamos propícios a criação, descobertas e inquietações.

A falta de expressão do estudante na construção da escola se reflete nas principais pesquisas sobre evasão escolar. Recentemente o fator “desinteresse” vem liderando a lista de motivos para que os jovens deixem de frequentá-la. Construímos um modelo escolar feito por adultos sem qualquer participação de jovens e crianças; a cultura do jovem passa longe do ambiente estéril da sala de aula.

Qualquer sistema de avaliação, que se diz 360 graus, deveria colocar o estudante como uma das principais fontes de informação. Afinal, quem pode saber qual o melhor professor, a melhor estrutura, o melhor método e as melhores saídas para um ensino do que aquele para qual a escola foi feita?

Aquelas instituições consideradas de excelência no Brasil, inclusive as particulares, costumam estimular os alunos a avaliar ao menos o trabalho dos docentes. Pode soar estranho a princípio, mas, é a avaliação do aluno sobre o professor que mais provoca transformação no seu trabalho, pois toca diretamente a auto-estima e o propósito de vida desse profissional.

Mas na grande maioria das instituições, tem cabido tão somente a práticas isoladas elevar o grau de participação do estudante nas questões escolares; algumas delas lideradas por professores e diretores estimulados, e outras por organizações do terceiro setor que trabalham nos limites entre escola e comunidade. O grêmio estudantil fortalecido e autônomo de algumas têm criado ambiência para que próprios estudantes tomem conta dessa questão.

As práticas de comunicação a arte, cujas ferramentas hoje estão acessíveis às pontas dos dedos nos celulares, também têm sido utilizadas por algumas instituições para dar voz aos alunos. Documentários, blogs, sites e aplicativos são criados por eles em escolas que adotaram programas em seu contra-turno.

Educação de qualidade, esse mote que começou a ser utilizado após a quase universalização do ensino, deve ser seguido sempre das perguntas “para quem?”, “para quê?. Ora, se a cobrança de uma educação de qualidade se reflete no aprendizado do estudante, parece óbvio que este deva ter alguma ingerência nas definições do que é constituída essa tal qualidade. Nesse sentido, o Festival Educação, que estimula os alunos a pensar sobre suas escolas, parece um modelo simples e barato para acelerar processos decisórios coletivos nas escolas.

Já é passado o momento para que gestores de políticas públicas comecem a prestar atenção no que pensam os estudantes. Há outras redes, como o Facebook, que já fazem esse papel de escuta; as manifestações que se iniciaram em junho já mostraram que podem faltar ruas para tanto desabafo.

Por Alexandre Le Voci Sayad e *Gilda Portugal Gouvêa

*Gilda Portugal Gouvêa é professora doutora do Departamento de Sociologia da Unicamp.

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