terça-feira , 12 dezembro 2017
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Ensino Médio deve valorizar lado “infantil” do aluno.

cerebro“Reality shows” ensinam pouco. Mas o sucesso retumbante de “MasterChef Júnior” estampou no pensamento da audiência e nas manchetes dos jornais algo que temos conhecimento tácito, mas as a dureza das pequenezas diárias nos permite esquecer: crianças são mais criativas, assertivas e solidárias que adultos.

Elas de fato criaram pratos mais ousados, saborosos e belos que os adultos e, durante o programa, têm sido mais honestas e solidárias para com seus pares. “As crianças tiveram uma organização e um desempenho que impressionaram muito na competição”, declarou recentemente à mídia o renomado cozinheiro Alex Atala.

Quando pensamos na educação uma pergunta paira no ar: o que fazemos com a criatividade, capacidade relacional, resiliência e ousadia durante os 15 anos de mergulho em currículos e conteúdos escolares? São essas características positivas e valorizadas apenas quando somos crianças?

Muitas vezes a escola como conhecemos tem exercido o triste papel de aniquilar habilidades inatas ou até “infantis”, além de não desenvolver competências valiosas em muitos aspectos na vida – como nos campos relacional e profissional. A instituição escolar acredita numa falsa dualidade: é preciso destruir a criança autônoma, criativa e aberta a experiências para desenvolver um adulto maduro, crítico, que “saiba pensar” e cumprir tarefas complexas.

Essa falta de nitidez estratégica é mais evidente nos últimos anos escolares, o Ensino Médio. Muitas vezes não é intencional, pois responde às demandas que as próprias universidades colocam como importantes para o ingresso no Ensino Superior: o conteúdo e a memorização. São poucos os vestibulares no Brasil que exigem de seus candidatos noções estéticas, capacidade de trabalho em grupo e criatividade, por exemplo.

O engessamento na escola começa pela organização curricular rígida. O conhecimento é fatiado e classificado, deixando para trás a noção de totalidade dos fenômenos naturais, históricos e humanos, como o conhecimento que adquirimos na infância. Um raio torna-se somente um fenômeno físico a ser estudo naquela disciplina; assim como a Revolução Francesa um movimento político-econômico para ser memorizado no livro de História.

“Aprender acaba tornando-se um ato meramente cognitivo. A esfera da experimentação –“ como a do bebê que aprende a caminhar porque cai repetidas vezes, se reduz às simulações que acontecem em laboratórios de Química.

O desmonte das características infantis dos alunos prossegue em diversos outros campos, como na estrutura física da sala de aula, na punição ao erro, nas métricas de aprovação e no interesse ainda muito discreto pelas chamadas habilidades não-cognitivas. É justamente com o foco nestas últimas que o MIT (Massachusetts Institute of Technology) criou um importante laboratório de educação inovadora chamado curiosamente de “Lifelong Kindergarden”, ou na tradução livre, “Jardim da Infância da Vida Inteira.”

Tem sido nessa etapa da vida (a infância) e da escolarização (a Educação Infantil) que pesquisadores ousados têm buscado respostas para se reinventar o Ensino Médio.

Afinal, a experimentação (no sentido na criação) e a brincadeira são o centro do aprendizado do Jardim da Infância. A sala de aula é um espaço livre, multi-funcional, onde combinações possíveis entre duplas ou trios de estudantes, brinquedos e experiências são livremente criadas. A comunidade, como nas experiências italianas da Reggio Emília, faz parte da escola – crianças aprendem nas praças e parques. E a escola, por sua vez, é parte indissociável da vida – o sonho verbalizado por todo educador.

Toda criança é ousada, criativa e utiliza o erro para desenhar seu próximo acerto. O papel central do Ensino Médio deveria ser conservar, em um formol etéreo, essas características que serão certamente exigidas para a sobrevivência na vida adulta e profissional. Essa estratégia começa a ser desenhada em experiências escolares pelo mundo e consiste em relativizar a importância do “conteúdo”, flexibilizar o currículo rígido e apostar no trabalho por projetos com foco na curadoria de informações e no desenvolvimento das habilidades não-cognitivas.

Por Alexandre Le Voci Sayad *

*Fundador do MEL (Media Education Lab) e membro-dirigente da aliança global da Unesco para a alfabetização para a mídia. É autor do livro Idade Mídia: a comunicação reinventada na escola, publicado pela editora Aleph.

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