terça-feira , 12 dezembro 2017
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O caminho para uma economia espiritual

Para Amit Goswami:

Primeiro, notemos que durante o período em que o capitalismo se desenvolveu nas mãos de iluminados, como Adam Smith, a metafísica influente era a do dualismo cartesiano sob o modernismo, e não a do materialismo. No modernismo, a mente e os significados são valorizados.

Segundo, notemos que o capitalismo substituiu o feudalismo e a economia mercantilista (o termo usado por Adam Smith para a economia inglesa prevalente da época), na qual a busca pelo significado era muito limitado e até mesmo negado a um vasto número de pessoas. Comparado ao feudalismo, onde a riqueza e o capital permaneciam nas mãos dos poucos afortunados, o capitalismo e a economia de mercado certamente trouxeram capital para muitas outras mãos. Isso deu a um grande número de pessoas a liberdade e a flexibilidade econômica necessárias para que fossem atrás do significado de suas vidas.

Terceiro, notemos que o único desafio sério ao capitalismo, após a falência do feudalismo/mercantilismo, foi a economia marxista, que se revelou um verdadeiro fracasso! Ao invés da “mão invisível” de Adam Smith, que dirigia o mercado e distribuía o capital, Marx imaginou que esta distribuição poderia ser feita mais eficientemente sob uma ditadura do proletariado, na qual o trabalho diretamente controla a distribuição e iguala a riqueza. A economia marxista, no entanto, só foi instalada sob regimes comunistas (nos quais a ditadura do proletariado se tornou mais uma ditadura burocrática do que qualquer outra coisa) e falhou de maneira dramática. E o fator primordial da falência está associado ao fato de as pessoas não conseguirem se esforçar no trabalho quando o benefício não é a própria propriedade ou riqueza privadas.

Infelizmente, não precisa ser um gênio para perceber que a economia capitalista, tal como praticada hoje, também se encontra num ponto de crise. Em primeiro lugar, o capitalismo hoje é baseado no crescimento e na expansão contínuos, que requerem recursos ilimitados. Isto não pode ser sustentável num planeta finito.

Talvez a limitação dos recursos já tenha nos alcançado. A limitação ambiental é outra restrição ao crescimento ilimitado.

Em segundo lugar, o mercado livre não parece mais ser tão livre. Por quê? E qual é a solução?

Em terceiro lugar, o capitalismo, e sua expansão econômica contínua, produz padrões de vida e de remunerações cada vez maiores que não têm como serem mantidos, a não ser através da produção de inflação. Para suprir as demandas dos altos padrões, aliados aos altos custos, as pessoas se vêem forçadas a abrir mão de necessidades mais fundamentais, como as crianças terem acesso a mães que não trabalham, ou tempo de lazer, em busca do significado. Assim, as promessas básicas do capitalismo são invariavelmente substituídas pela natureza agressiva do mesmo.

Em quarto lugar, e mais importante, graças ao desenvolvimento das corporações multinacionais, o equilíbrio gerenciamento/trabalho, que alimenta a igualdade do movimento do significado entre as classes, está engessado. Qual é a solução para isso?

Na verdade, o capitalismo é melhor que o marxismo porque o primeiro reconhece a necessidade básica das pessoas de ter sobrevivência e segurança físicas. Esta necessidade básica do ego requer propriedade privada, e qualquer economia que renegue isso está fadada a falir.

Como aponta o psicólogo Abraham Maslow, nós todos temos uma hierarquia de necessidades, além das básicas. Um dos maiores defeitos do capitalismo é ignorar as necessidades mais fundamentais das pessoas.

Seguindo Maslow, mas modificando sua teoria de acordo com as idéias da minha abordagem mais ampla da espiritualidade, a da ciência inserida na consciência, podemos ver claramente quais são essas necessidades fundamentais e superiores.

Nossas necessidades superiores redefinidas e os elementos essenciais de uma economia espiritual

Os elementos básicos da ciência em desenvolvimento dentro da primazia da consciência são os seguintes:

– A consciência é a base de todo ser.

– As possibilidades da consciência são quatro: material (que é o que percebemos); energia vital (que nós sentimos, primariamente através dos chakras e depois pelo cérebro); significado mental (que nós achamos); e contextos discriminatórios supra-mentais, como as leis da física, os contextos de significado e sentimentos como ética e amor, além da estética (que intuímos). O material é chamado de bruto, e os demais perfazem o domínio sutil da nossa experiência.

– Quando a consciência escolhe, a partir das possibilidades, o evento próprio de sua experiência (com componentes físicos, vitais, mentais e supra-mentais), o físico tem a oportunidade de fazer representações do sutil. O físico é como o hardware de um computador, enquanto o sutil é como um software.

– A nossa capacidade de fazer representações físicas evolui. Primeiro, a capacidade de se fazer representações do vital evoluiu através da evolução da vida via órgãos cada vez mais sofisticados para representar as funções da vida, tais como a manutenção e a reprodução. Em seguida, a capacidade de se fazer representações cada vez mais sofisticadas do mental evoluiu. É neste estágio da evolução em que nós hoje nos encontramos.

– A nossa capacidade de representar o supra-mental ainda não evoluiu. No entanto, existe uma pressão evolutiva sobre nós neste sentido, a razão primária sendo que a espiritualidade nos atrai.

Dessa forma, deve haver uma premência não só no sentido de satisfazer às necessidades físicas, mas também às relacionadas a outras dimensões da nossa experiência. Além disso, para que as necessidades físicas sejam satisfeitas, a economia espiritual precisa levar em conta:

– A satisfação das necessidades emocionais, emoções positivas como o amor, a compaixão, e a própria satisfação, tanto condicionais como incondicionais;

– A busca do significado, incluindo a busca por um novo significado mental, o que requer criatividade;

– A busca das demandas espiritual e supra-mental (da alma), tais como altruísmo, amor e felicidade.

Na verdade, esta escala de necessidades não é totalmente hierarquizada. Quando as superiores são satisfeitas, a urgência de se satisfazer as necessidades mais abaixo diminui. O oposto também é verdadeiro.

Quando uma necessidade menos fundamental é satisfeita, a demanda para que as superiores sejam satisfeitas aumenta. Dessa forma, a estratégia mais adequada para uma economia mais idealista do capitalismo é levar em conta todas essas necessidades simultaneamente.

Enquanto o capitalismo é uma economia do bem-estar físico baseado na satisfação das nossas necessidades físicas condicionadas e egocêntricas, a economia idealista ou espiritual deve se centrar no bem-estar holístico, baseado tanto nas demandas físicas egocêntricas, como nas necessidades mais fundamentais e superiores (concernente à exploração do vital, do mental, da alma e do espírito).

A microeconomia da sutileza

Economia diz respeito à produção-consumo, à demanda-oferta, aos preços e assim por diante. Como é que essas coisas atendem as nossas necessidades mais sutis? Vamos comentar sobre esses micro-detalhes.

A produção de energia vital pode ser alcançada de diversas maneiras. Uma delas é pelo estabelecimento de florestas, já que as plantas têm abundante energia vital. Outra forma é pelo cultivo da saúde positiva na sociedade (para uma definição deste termo, ver meu livro The Quantum Doctor), uma vez que as pessoas com saúde positiva irradiam energia vital. No entanto, a melhor maneira de se garantir a produção de energia vital é estimular que os locais de trabalho, freqüentados por pessoas comuns, disponibilizem estruturas que permitam aos seus funcionários praticar a saúde positiva, como yoga, Tai Chi e meditação.

Em relação à produção do significado mental, nós já dispomos de meios no contexto das indústrias de entretenimento e de artes. Ambas têm a capacidade de produzir energia vital positiva (emoções positivas). No entanto, parte das indústrias de arte e entretenimento se rendeu ao negativismo da cultura materialista. Mas nós podemos redirecionar essa ênfase para um caminho mais significativo e positivo.

A produção de energia supra-mental e espiritual requer, neste momento, um esforço maior. Nos velhos tempos, as organizações espirituais (igrejas, templos, sinagogas, mesquitas, entre outros) cultivavam e produziam a inteligência supra-mental e espiritual através de seus líderes e praticantes. Hoje em dia, tais organizações estão mais interessadas em influenciar a política mundana do que investir no supra-mental. Mas não devemos nos enganar; ainda pode ser feito, embora talvez tenhamos que criar novas organizações espirituais para tal. Antigamente, talvez a forma mais eficaz de se produzir (e disseminar) a energia supra-mental tenha sido através dos monges peregrinos (por exemplo, os chamados de sadhus, na Índia, e os trovadores ocidentais). Ainda é possível reviver isso. De certa forma, as várias conferências da “nova era” em espiritualidade já cumpre este papel. Meditações em grupo também são eficazes. Por meio delas, segundo mostram alguns experimentos do parapsicológo Dean Radin, as pessoas podem ter experiências de consciência não-local e, portanto, darem um salto no domínio supra-mental. Isso pode ser feito até nos locais de trabalho.

Agora vamos à questão do consumo. Uma vez que o vital e o mental são mapeáveis em nós, eles podem ser consumidos tanto por meios locais como não locais. Quando assistimos a uma boa peça de teatro, por exemplo, isso cultiva em nós o processo do significado, mesmo o novo. Quando nós participamos de entretenimento com significado, nós sentimos emoções positivas; e nós as estamos consumindo. Enquanto consumimos, nós próprios nos tornamos potenciais produtores.

O consumo de energia supra-mental não é local, mas requer um estímulo local. Alguns cientistas concordam com o chamado efeito Maharishi, onde a energia espiritual e supra-mental gerada por um grupo de meditação é automaticamente consumido naquele local. Os dados são citados em vista da redução da taxa de crimes em grandes cidades onde grupos de meditação atuam. Isso é, no entanto, controverso, e não estou argumentando neste sentido. Um consumo mecânico, puramente quântico, da sua energia espiritual por mim requer que estejamos, de alguma forma, correlacionados. Por exemplo, os experimentos do neurofisiologista mexicano, Jacobo Grinberg, sugerem que, se duas pessoas têm a mesma intenção, elas assim se tornam correlacionadas, mas deve ser mais simples que isso. Existem várias histórias de pessoas que se sentem em paz na presença de um sábio (eu mesmo tive esta experiência). Talvez só o fato de estar no mesmo local pode ser o estímulo que deflagra o consumo.

A melhor parte da história dos produtos da energia sutil é que ela é majoritariamente de graça. As dimensões sutis não têm limites. Nós podemos consumir o amor de um sábio o tanto quanto quisermos, ele não tem fim. O sutil nunca zera. Talvez haja um pouco de custo material na sua produção. Assim, algumas pessoas talvez coloquem um preço, mas isso pode não ser uma má idéia, pois faz com que as pessoas se tornem mais sérias em relação as suas intenções ao consumirem estes produtos sutis. Essa é uma oportunidade para os governos subsidiarem a indústria do sutil.

Fonte: Amit Goswami

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