terça-feira , 12 dezembro 2017
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Crise Mundial – Uma bolha inconveniente

Para Alexandre Le Voci Sayad:

No universo das porcentagens de decrescimento e curvas de taxas de desemprego que dominam o debate da crise mundial, há elementos à espreita, na sombra das grandes notícias, que preparam um bote ainda mais fatal. A falta de liquidez do mercado imobiliário americano, que desencadeou a queda de dominós da economia, pode parecer menos assustadora para a pouco comentada crise que os Estados Unidos e o mundo, podem enfrentar: o estouro de uma possível bolha de crédito estudantil do tamanho de US$ 1 trilhão. 

Maior que a dívida dos cartões de crédito e de automóveis daquele país (em torno de US$ 700 bilhões cada), a cifra assustadora não cresceu do dia para a noite. No pós-guerra, uma economia promissora estimulava o empréstimo para estudos de graduação, a juros baixíssimos, financiados pelo próprio departamento de educação americano . Até o começo dos anos 2000, a dívida correu sobre certo controle. Mas desde então, cresce a galope, sem lastro aparente.

Desde a administração de George W. Bush, medidas têm apertado o cerco rispidamente contra devedores.  Este ano foi recordista em alunos pobres expelidos da universidade por não conseguirem honrar as garantias. Casas penhoradas, bens tomados pelo estado e estudantes inconsolados, jogados aos empregos menos qualificados, são cenas cada vez mais comuns nas cidades mais pobres. O presidente Barack Obama pretende prolongar um ato de 2007 que prevê o congelamento de empréstimos estudantis por parte do governo.

As conseqüências desse cenário pouco comentado na autoestima do americano médio são desastrosas. Reportagem recente do Wall Street Journal, por exemplo, mostrava estudantes que perderam a casa e passaram a morar dentro do automóvel.  Um levantamento do próprio governo aponta que dois milhões de devedores têm mais que sessenta anos de idade – o que prova que a inadimplência não é novidade.

Fora isso, os EUA apareceram mal colocados em uma recente pesquisa da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que listava os melhores países cujos estudantes conseguiam maior graduação que pais ou avós (num mundo mais exigente quanto ao diploma universitário).

A maneira de medir ou ranquear as melhores escolas por pais, estudantes e mídia, está cada vez mais pendendo para a colocação profissional obtida por alunos formados pela instituição, e ignorando outros fatores de qualidade. A equação simplória “valor investido na formação” sobre “valor ganho no emprego” tem imperado em rankings privados como o “The Alumni Factor” (https://www.alumnifactor.com/).

Não à toa as universidades como Harvard e Stanford estão abrindo online – a boa notícia esconde uma instituição que se apresenta caríssima para atender à nata de privilegiados presenciais.

As causas, e consequências, do que acontece nos EUA são muito próximas do que vivemos, ou estamos para viver por aqui. A expansão do ensino superior privado e do ProUni acontece numa época em aparência tão “dourada” quanto o início do crédito estudantil americano. Um tropeço na economia é motivo para temer o futuro de nossos estudantes na universidade, num cenário de crescimento delicado.  Vale lembrar  que nossa pirâmide de crescimento populacional só está começando a estagnar- o envelhecimento dos adolescente de hoje são o público em massa da universidade de amanhã.

Mover com cautela essas peças do cenário educativo pode garantir um crescimento mais sadio para o Brasil – trata-se de uma bolha inconveniente que não deve ser ignorada  nem tolerada em atitude populistas de distribuição de renda como se vê na proximidade de eleições.

Fonte: Alexandre Le Voci Sayad

Alexandre é diretor social da plataforma MyFunCity e secretário executivo da Rede CEP (Rede de Experiências em Educação, Comunicação e Participação), que reúne treze projetos que envolvem mídia e educação no Brasil. É também coordenador de projetos e consultor dos colégios Bandeirantes, Lourenço Castanho e Gracinha. É coordenador do programa Open City, em parceria com a Universidade de Harvard, MIT e Colégio Bandeirantes. Autor do livro “A Terceira Face”, de (Escola de Escritores, 1995). É membro da agência REPENSE, como “Repensador” na área de educação.

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