quarta-feira , 13 dezembro 2017
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Antipatia 2º o Budismo

budismoO Dharma da Integração

:: Reflexões sobre o conceito de afinidade segundo o buddhismo ::

Tam Huyen Van

Considerando-se a importância da extrema e fundamental relação entre o indivíduo e o seu meio social, a reflexão sobre os aspectos essenciais desta associação torna-se um fator crucial de interpretação e análise em toda forma de abordagem humanista. E não é diferente com o buddhismo. Sob todos os aspectos, os ensinos de Buddha são de fato ensinos de caráter humanista, e sem esta perspectiva boa parte da prática de aprendizagem contemplativa inerente ao processo buddhista será perdida em ações superficiais, mesmo quando realizadas com muito empenho.

Este sempre foi um grave dilema na natureza humana: de muitas maneiras nós estamos constantemente nos empenhando em atingir metas, realizar nossos ideais, ou seguir doutrinas que atendam nossas expectativas. Mas são poucas as mentes que realizam tais esforços com uma real e saudável consciência. De fato, o mais comum é que nossas ações sejam fundamentadas em grande disposição e vontade, mas sem aquele componente de auto-observação e sensibilidade perceptiva que poderia dar a estas ações uma grande qualidade interpretativa, favorecendo nosso amadurecimento e sabedoria.

Os ensinos de Buddha, ou mais corretamente os fundamentos deste ensino, são definidos na tradição buddhista como “Dharma”, um termo sânscrito que possui muitos significados. No caso específico do conhecimento prático buddhista, este conceito está associado ao corpo amplo de argumentos a partir dos quais Gautama Buddha cimentou todo o caminho psico-espiritual associado à experiência de Esclarecimento segundo a sua tradição espiritual. Este corpo fundamental é assim denominado “Dharma”, e sem ele o próprio sentido do buddhismo se perde em quase nada. Porque, de fato, o buddhismo é um caminho prático. Não é possível haver a experiência do Dharma buddhista sem que o indivíduo se mobilize diligentemente para aprender através de seus esforços práticos de consciência pessoal. Sem tais esforços de percepção adequada e plena atenção contemplativa, todo rito, todo ideal, qualquer doutrina irá sucumbir ao contínuo vício humano de transformar novos caminhos em uma simples atitude sócio-cultural, em muitos casos uma excentricidade. Sob a ótica de Buddha, essas idiossincrasias sócio-culturais, embora naturais e conseqüentes à própria natureza histórica da civilização humana, não são tudo o que podemos obter ao construirmos uma sociedade. Em outras palavras, sob o exercício contemplativo buddhista a sociedade humana pode mais do que apenas construir-se a partir das características naturais e instintivas comuns em todas as criaturas sociais.

Neste aspecto, somos mais do que apenas primatas socialmente sofisticados; temos o potencial para tornar as relações interpessoais em relações muito mais profundas e ricas de opções integrativas do que aquelas opções derivadas de nossa carga comportamental instintiva, e de nossa caleidoscópica (e frequentemente confusa) tipificação psico-emocional. Evidentemente, essa possibilidade depende de uma profunda transformação interna, pontual, e a humanidade ainda não provou-se capaz de criar um mecanismo religioso, e muito menos social ou político, capaz fomentar coletiva e universalmente esta realização. Trata-se de uma experiência por demais íntima e pessoal, e exige um comprometimento profundo com uma prática que, sob todos os aspectos, está subordinada à grande disciplina e auto-regulação. Contudo, ela não é inalcançável. Ao contrário, esta experiência não apenas é realmente viável, mas completamente coerente com o nosso potencial perceptivo. Apenas, ela torna-se viável essencialmente por uma via individual (mas jamais solitária e egoísta), subordinada à nossa mente.

O buddhismo, como toda grande religião, compartilha em sua estrutura uma forte diversidade em seus níveis de interpretação. Mas, a despeito desta condição comum às tradições espirituais, o buddhismo possui um fundamento ético e interpretativo único, mesmo entre os sofisticados sistemas psico-espirituais do oriente. Neste sentido, mesmo para as pessoas que buscam no buddhismo motivação para exercer corretamente os conceitos de compaixão e compreensão profunda – os quais compõem o mais importante aspecto da vivência religiosa buddhista – é preciso esclarecer que esses mesmos conceitos são definidos no dharma de Buddha como aspectos conseqüentes de uma prática onde o exercício atento de integração e interconexão com todas as coisas torna-se crucial. Neste sentido, apesar da linguagem espiritual buddhista ser fácil de expor, os aspectos inerentes a essa linguagem não o são, pois sem o componente consciencial da experiência contemplativa (meditativa) buddhista a correta interpretação sobre o quê significa a compaixão profunda e a compreensão plena de todos os seres, segundo no buddhismo, perde-se em um lugar-comum de boas intenções.

E neste ponto temos as bases para o esclarecimento sobre o real objetivo de uma vida integrativa e fraterna: ao agir com plena consciência diante das coisas como elas são (e não como queremos que sejam), aprendemos a reconhecer seus valores objetivos ou qualidades potenciais, e descobrimos qual o verdadeiro sentido da visão compassiva e compreensiva. Ao reconhecer a base da consciência compassiva, aprendemos a desenvolver uma perspectiva madura e flexível sobre quem são as pessoas à nossa volta, e como podemos nos relacionar com elas.

O dharma buddhista não enfoca a convivência interpessoal humana a partir de uma conceitualização egoísta, onde as expectativas pessoais precisam se encaixar com aparência, condição social ou posturas comportamentais dos outros; no plano das relações humanas buddhistas, o que mais importa é a capacidade do indivíduo em aprender a melhor reconhecer seus impulsos afetivos, e desenvolver em si uma aguda percepção sobre as naturezas e intenções de tudo o que o cerca.

Esta proposição é, admito, muito sutil e delicada, e frequentemente muitas pessoas encontram dificuldade para perceber corretamente qual o seu significado. Afinal, é extremamente comum que nossos impulsos sociais de relação e convivência sejam baseados em simpatias e antipatias, e que estas experiências por sua vez se fundamentem na complexa rede de construções culturais, conceituais e emocionais nas quais todos os seres humanos estão mergulhados – seja pelos códigos milenares de raça ou ancestralidade, seja pelas influências educacionais e políticas consolidadas pelo entediante vício de perpetuação conservadora de hábitos sociais arraigados.

Assim, mesmo sem perceber, nossas relações interpessoais constantemente se baseiam em sentimentos de identificação estética ou sexual, em afinidades religiosas, culturais ou políticas com todos que entramosem contato. Mesmono caso de experiências de contato com outros seres vivos ou coisas inanimadas, nossos impulsos humanos – baseados em aspectos não-saudáveis e ignorantes de nosso potencial perceptivo – nos levam a agir com intenso desprezo pelas nuances essenciais que compõem o universo existencial contido na própria natureza destes seres e coisas.

Toda a senda humana das relações existenciais, ao longo das dezenas de milhares de anos que compõem o pavimento de nossa evolução, se baseia nos aspectos mais egoístas e competitivos de nossa natureza, e aqui temos a raiz dos conflitos humanos, dos extermínios ecológicos, da indiferença pela natureza intrínseca das coisas no mundo. Ao longo deste tempo, e por muitos meios, houve momentos em que alguns homens e mulheres sensíveis ao potencial trans-instintivo humano (essa parcela de nossa natureza capaz de ir além dos impulsos primais do nosso ser) procuraram atingir outros modos de agir socialmente a partir de novos conceitos perceptivos, mas infelizmente até hoje ainda não foi possível encontrar uma profilaxia coletiva realmente coerente e capaz de superar o terrível condicionamento egoísta que ainda direciona as relações entre todos nós.

Buddha percebeu esse dilema, e na verdade foi justamente sua perplexidade com a dificuldade humana em lidar equilibradamente com a condição impermanente e indefinida das questões existenciais que o levou a buscar uma saída para essa terrível condição. O que o Buddha encontrou através de uma experiência psico-espiritual profunda, foi a realização de que as relações humanas são direcionadas e baseadas em nossa condição mental, e que esta condição mental – apesar de parecer impossível – pode ser desenvolvida para um nível muito mais pleno do que as simples experiências psico-emocionais que se justificam por nossas necessidades imediatas.

Até mesmo nossos afetos, o modo como criamos vínculos perceptivos sociais com aqueles que nos cercam, podem ser experimentados de uma forma muito mais viva, fluida e – principalmente – compreensiva do que imaginamos. Mas para isso é preciso conhecer (e reconhecer) a realidade dos afetos humanos. Sob a ótica buddhista, nossas relações costumam ser baseadas nos impulsos egoístas da mente. Assim, por exemplo, imaginamos amar mais os nossos filhos; mas os filhos alheios – mesmo quando somos saudáveis o suficiente para sentir carinho e bondade para com todas as crianças – sempre serão vistos como menos relevantes ao nosso coração, pois não compartilham conosco toda uma história de sangue, familiaridade, e criação. Entretanto, a mais correta realidade é que, para a percepção consciente, os afetos profundos (ou seja, o amor pleno) se manifestam – precisam se manifestar – indiscriminadamente em relação a todas as pessoas.

Obviamente, existem nuances de contato e experiência, sem falar nos aspectos crucias de responsabilidade e convívio. Mas o que o dharma buddhista ensina aqui não é a afirmação pueril de que a mente deve “amar” qualquer um a despeito das condições específicas destas pessoas; ao contrario, demonstra-se nos ensinos de Buddha que a mente, para realmente exercer o seu potencial afetivo de maneira saudável e viva, precisa experimentar corretamente aquilo que denomino “ética consciencial” diante de todas as existências. Em outras palavras, o amor verdadeiro se manifesta através da percepção compassiva, livre e integrativa, e da capacidade em reconhecer e respeitar realmente a vida no outro, seja ele quem for (e a despeito de quem possa ser).

Quando somos capazes de realizar essa sabedoria sob uma prática contemplativa constante e diligente, o amor pleno – aquela experiência de amor fraternal e inclusivo – será vivenciado, e nossas ações, pensamentos e palavras irão se basear justamente nisso, e não em impulsos puramente ignorantes de paixão, desejo e consumo. A partir disso, iremos agir em conformidade com as condições e responsabilidades que estes outros seres irão se apresentar em nossas vidas particulares, mas jamais seremos indiferentes à sua existência.

Para que esta concepção de amorosidade fraterna e plena possa ser compreendida, é preciso que saibamos entender o quanto o buddhismo, como movimento espiritual e psico-filosófico, se fundamenta no entendimento da Roda da Vida como sendo a essência da interconexão indestrutível de todas as coisas no universo. É a interconexão que justifica a Vida, e sem ela nada seria possível; é esta mesma interconexão que fomenta alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, paz e guerra. Tudo é uma questão de escolha, em meio ao fluxo implacável da Impermanência e Transformação que permeia e constrói o mundo. E será exatamente o modo como realizamos nossas escolhas que determinará a qualidade de nossas realizações e relações. No buddhismo, as escolhas são inevitáveis, mas como sempre é a Mente que irá determinar como escolhemos. E se a mente não for capaz de aprimorar sua sensibilidade e discernimento, as escolhas que compõem nossa vida serão pobres e sempre insatisfatórias, pois elas nunca parecem resolver nossa eterna busca por segurança e prazer pessoal (que normalmente confundimos como sendo a verdadeira “felicidade”). Falta em todo esse processo uma ética, uma atitude esclarecida, uma visão aguda da realidade das coisas.

O caminho da ética de consciência não é fácil. Mas é plenamente possível. Entretanto, é preciso aqui compreender que o dharma buddhista, embora pareça definir-se em moralismos e virtudes, de fato se apresenta sob a égide de um exercício contínuo de discernimento e atenção ética, pelo qual a idéia de moralidade não surge a partir de doutrinas e regras repressoras, mas se manifesta como conseqüência de atitudes coerentes, justas e simplesmente sensíveis ao bem comum. Quando a mente é capaz de praticar a atenção profunda sobre todas as coisas, ela logrará alcançar a margem da liberdade de consciência. E esta liberdade significa no buddhismo a obtenção da auto-realização, uma experiência definitiva para o amadurecimento da natureza humana. Ao permitir que nossa mente e coração se libertem dos pré-conceitos, da ignorância e superficialidade contidas nos impulsos de simpatia e antipatia que frequentemente determinam nossas ações, estamos prontos para viver a mais correta concepção de integração com a existência.

Tam Huyen Van

Site Oficial: http://zhongdao.com.br

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